Rita, contadora de histórias

Ultimamente tenho tentado fazer mais por mim e pelo meu negócio. Fotografar mais, publicar mais, partilhar mais e mais e mais. Tenho feito também o esforço de tentar melhorar a forma como me apresento ao cliente através do documento de orçamento. Escrevi um texto, fiquei orgulhosa, descrevi-me como "Contadora de histórias".

Hoje dei por mim a pensar que na tentativa de fugir ao cliché, acabei por pegar no maior deles todos. Acho que são poucos os fotógrafos que não se intitulam assim e que não apresentam ao cliente um texto bonito sobre fazer parte da história deles e tudo mais. Bolas, vou ter que fazer tudo de novo. E foi então que me apercebi:

Não, não tenho que fazer tudo de novo. (Preparem-se para o grande cliché que aí vem...) Todas as pessoas que passam na nossa vida, marcam-nos e alteram a nossa história. Todas aquelas pessoas que eu já fotografei, se calhar não o sabem, mas marcaram-me e ficam comigo. E ficarão guardadas na minha memória, tenho a certeza.

Lembro-me da primeira modelo que fotografei, num parque ao pé de casa. A Gabriela Gonzaga. O primeiro casamento que fiz foi da Marisa e do Tiago. A primeira festa que fotografei foi os 25 anos da Sofia.

Não que seja apenas por ser o primeiro porque todos ficaram na minha memória. Sei exatamente todas as pessoas que fotografei e guardo-as com carinho num cantinho especial do coração. Lamechices à parte. E lá está, elas fazem parte da minha história, da minha experiência como fotógrafa e acima de tudo como ser humano. Porque não consigo só trabalhar. Gosto de conhecer as pessoas com quem o faço e perceber que somos todos diferentes, mas todos iguais. Portanto sim, querendo fugir aos clichés, considero o meu trabalho uma história. E vocês fazem parte dela e eu espero também fazer parte da vossa e também espero não ser mais um rosto esquecido entre todos aqueles que passaram nas vossas vidas e não marcaram o seu lugar.

Porque eu sou aquela fotógrafa que gosta de vos conhecer antes de começar a trabalhar. Sou aquela fotógrafa que lacrimeja um bocadinho por detrás da câmera quando vê a noiva subir ao altar. Sou aquela que está lá para arranjar o cabelo se necessário, aligeirar o ambiente, fazer rir, limpar lágrimas e ouvir e partilhar histórias de vida. Sou aquela que põe todo o seu coração nos trabalhos, que se apaixona pelo vosso amor e que põe sentimento em tudo aquilo que faz.

Gosto de trabalhar com as famílias que me tratam por tu e que me acolhem como se fosse dela. Gosto quando as avós nos eventos andam preocupadas se já comi e se não me quero sentar um bocadinho. Não porque queira e esteja à espera de autorização, mas porque sabe bem o conforto de alguém que se preocupa. E quando as noivas partilham comigo o que estão a sentir. Gosto de fazer parte das vossas vidas. Gosto de mesmo depois dos trabalhos, ir mantendo o contacto e ver como está tudo, como está a vossa vida. Adoro fotografar grávidas e quando sei que os bebés nasceram. E gosto deles, mesmo que não os conheça, como se fosse uma espécie de madrinha por detrás da câmera, aquela que os conheceu antes de nascerem. E gosto tanto quando vejo que alguém com quem trabalhei me recebe de braços abertos e me deixa fazer parte da sua história.

Se não é isto que procuram numa fotógrafa, então é melhor não falarem comigo porque não sei ser de outra maneira. E vocês já vão fazer parte da minha história quer queiram quer não. Gostava de conseguir fugir ao cliché, mas comigo é assim.