The quiet before the storm

Dizem que há sempre um momento calmo e de silêncio antes da tempestade. Para mim, é completamente o oposto.

Ao contrário do que muitos podem pensar, ser fotógrafo não é fácil. É muito mais que clicar num botão. Sem entrar em todas as complicações técnicas e monetárias, ser fotógrafo é uma constante aprendizagem de como lidar com os nervos e com ansiedade. Às vezes chego ao ponto o ridículo de ficar nervosa por fotografar casais que conheço há anos. No entanto, com o tempo, vamos aprendendo a lidar com este stress diário.

Para mim, eventos é o ponto alto dos nervos. Tudo tem que correr bem. Só acontece uma vez e se falhamos a fotografia daquele momento específico, está tudo arruinado. Esse momento não volta a acontecer e perdemos a nossa oportunidade de ouro. Fica comprometido o nosso trabalho e também reputação.

Antes de um grande evento, eu não consigo comer. O meu estômago fica frágil e parece uma bomba-relógio. Admiro os fotógrafos que fazem parecer que têm tudo controlado e não se enervam. Não sei se de facto ficam como eu, mas o que é certo é que os invejo!

Trabalhar com crianças é um desafio totalmente diferente. Para mim, é como trabalhar com animais. São imprevisíveis, incontroláveis, e não lhes podemos pedir para posar. Fazem o que querem.

Esta série de fotografias pertence ao batizado e segundo aniversário do Salvador. Foi também um dia de muita aprendizagem e tirei grandes lições deste dia.

Cheguei a casa do Salvador agitada e nervosa, como sempre. Estava um pouco mais que o habitual pois não estava familiarizada com o local nem com a família. A madrinha do Salvador, que conheço há cerca de 2 anos, falou comigo com pouca antecedência. Tinha disponibilidade, claro que aceitei, mas não conhecia a família, ia "às escuras". Mal entrei, a família foi imediatamente simpática e acolhedora. No entanto, o pior que podia acontecer, aconteceu. O Salvador estava com medo de mim. Naturalmente. "Quem é aquela estranha com uma câmera apontada a mim", devia ele pensar. Sempre que me tentava aproximar, o Salvador chorava, berrava, entrava em pânico. Não me queria sequer a olhar para ele. Estávamos os dois num pico de nervos e ansiedade. Também me apetecia chorar, sem saber o que fazer.

Quem me conhece, sabe que adoro gatos. Lembrei-me então de todos os gatos da minha vida, em particular do Félix. O Félix é o gato dos meus vizinhos, que o soltam durante o dia. Tem uma irmã, é a Nica. Os meus vizinhos foram para fora uma vez e pediram-me para tomar conta deles. A Nica não me largava, ficámos logo amigas. O Félix fugia de mim, só comia quando eu não estava por perto e não me dava confianças. Não dei atenção ao Félix. Não querendo prolongar a história, hoje o Félix está sempre no meu jardim à minha espera, eu chamo-o e ele corre para mim e dá-me a barriga para lhe dar festas. Sei bem que não é assim com toda a gente. Algumas relações demoram mais tempo a ganhar confiança.


Foi exatamente isso que pensei. Nunca conseguiria chegar ao Salvador forçando esta relação. Aproximei-me então da sua irmã, Constança e ganhei imediatamente a sua confiança. À semelhança do Félix e da Nica.

Poucos minutos depois, eu e o Salvador já éramos amigos. Quinze minutos após esta série de fotografias, já me sorria e pedia para lhe mostrar as fotografias que lhe ia tirando.

No final do dia, já estava confortável comigo e com a câmera. Até posava!


Por este motivo, e muitos outros. adoro esta coleção de fotografias. Pessoalmente prefiro sempre as fotografias tiradas em casa, antes das grandes festas. Seja em casamentos, batizados, etc. São as mais genuínas, cheias de história. As que transbordam emoções, nervos, o stress antes dos convidados chegarem. Estas são as memórias que ficam. Isto é o real, antes do bonito.


"This is the real stuff."